Resoluções de Ano Novo: Este ano não tem

A história que vou contar começa em 2016. Aquele ano foi muito produtivo, vários projetos saíram do papel e, depois de um período turbulento, as coisas pareciam estar entrando nos eixos. Foi nesse clima de otimismo que minhas resoluções para 2017 foram criadas.

Por vários anos, compartilhei publicamente as minhas resoluções de ano novo, pois, para mim, a cobrança de outras pessoas me daria a motivação necessária para buscar o compromisso assumido. Com o tempo, deixei de acreditar nisso e, contrariando algumas recomendações, parei de compartilhá-las. A palestra do Derek Sivers cujo título é Keep your goals to yourself, no TED, teve grande influência nessa decisão. Um dos argumentos apresentados por ele é que quando se compartilha os objetivos com alguém, há uma espécie de antecipação da satisfação, como se o objetivo já tivesse sido concluído, e isso afeta a motivação para buscar o real objetivo.

A lista estava enxuta e bem visível nos mapas mentais que, a propósito, uso quase que diariamente. Se bem executada, traria grandes resultados. Os 4 passos para o sucesso! Não tinha como dar errado. No entanto, o que aconteceu nos meses seguintes é digno de fazer o resiliente Joseph Klimber chorar.

Em fevereiro, descobri que a primeira resolução era inviável, em março, a segunda já tinha sido descartada, e as duas restantes tiveram seu fim decretado em meados de junho.

O ano de 2017 ainda estava no meio e todas as resoluções já tinham falhado. Eu fiquei à beira de um ataque de nervos. O que me intriga é que, mesmo assim, a rotina continuava corrida. Muito trabalho. O piloto automático estava ligado.

Quando as coisas chegam a esse ponto, o melhor a fazer é parar tudo e avaliar a situação. Já fiz isso em outras ocasiões.

Cf. Duas semanas sem Skype: viva a produtividade
Cf. Gerenciamento do Tempo x Produtividade x Aprendizado

“Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes.”

O que aconteceu, Alessandro?

Depois de um balanço geral cheguei às seguintes conclusões.

A primeira resolução prometia ótimos resultados, porém ao mesmo tempo que era ambiciosa também era desgastante, consumia alguns dias da semana. Descobri que minha agenda não estava preparada para ela. Ficou claro que nenhuma grande meta é isolada, a vida tem que girar em torno dela, caso contrário, ao primeiro imprevisto, ela será abandonada. Foi o que aconteceu!

A segunda dependia de fatores externos que não se concretizaram. Está aí algo em que vou prestar muita atenção quando estiver definindo metas: tudo que depender de circunstâncias externas vai ser muito bem avaliado. Talvez tenha faltado um plano B, C, D…

A terceira nem chegou a sair do papel, por um simples motivo: ela não deveria ter entrado na lista. Ao refletir com calma, reconheci que não era uma meta verdadeiramente minha. Esse tipo de meta nunca sai do papel e acaba ficando lá só para ocupar espaço e atrapalhar a execução das outras. Parece inocente, mas consome nossas energias. Talvez, um NÃO bem dado tivesse cortado o mal pela raiz.

Há algum tempo, um amigo me disse “quem dá desculpas, fica bom nisso: em dar desculpas”. Essa frase nunca mais saiu da minha cabeça. No fundo, a desculpa é uma maneira camuflada de não assumir a responsabilidade pela falha. Reconhecer o erro é o ponto de partida para a correção, e isso é maravilhoso. Se os parágrafos acima lhe pareceram desculpas, agora faltam argumentos para quarta e última resolução. Nela eu falhei miseravelmente!

Resoluções de Ano Novo x Metas para o agora

Com o balanço concluído, as resoluções de ano novo foram substituídas por metas para o agora. Não para a próxima semana, não para o próximo mês, muito menos para o próximo ano.

Veja bem, o problema das resoluções de ano novo já começa pelo nome, elas são “de ano novo”. Essa definição é uma armadilha mental. Alguém que em 1º de dezembro diz que a meta para o ano que vem vai ser X já perdeu um mês do cronograma, quase 10% do ano. Será que a lista de resoluções muitas vezes não serve como uma ferramenta de procrastinação?

A ÚNICA COISA

É impressionante o quanto os livros fazem parte da minha vida. As maiores decisões dos últimos 15 anos foram inspiradas por algum livro. Nunca sei se são as palavras do livro que me ajudam ou se é o tempo off-line que me leva a refletir. Dessa vez o “salvador da pátria” foi o livro A ÚNICA COISA do Garry Keller.

A questão central do livro é:

Qual a ÚNICA COISA que posso fazer de modo que, ao fazê-la, o restante se torne mais fácil ou desnecessário?

Garanto que essa frase vai fazer muito sentido, depois que você tiver lido o livro. Daqui a pouco explico melhor o trecho em negrito. Escrevi essa pergunta em letras garrafais no quadro do escritório. Ela me “incomodou” por alguns dias. Era a primeira coisa que via ao chegar pela manhã.

Com o passar do tempo a ÚNICA COISA foi ficando mais clara até que consegui definir uma boa meta. Mas seguindo o conselho do Derek Sivers… bem, você já entendeu.

A Prova dos Nove

Se você procurar na internet, vai encontrar várias metodologias para definição de metas. Depois de encontrar a minha ÚNICA COISA, resolvi submetê-la ao SMART. Como esse método é antigo, já sofreu vários ajustes e adaptações. O entendimento que adotei para o acrônimo segue abaixo:

  1. Specific (específico): uma meta bem detalhada e específica não abre margem para interpretações e mudanças de rumo. Você saberá, sem sombra de dúvidas, que atingiu seu objetivo, quando o tiver alcançado;
  2. Measurable (mensurável): é importante que seja possível medir o progresso, sem esse indicador (números) é muito difícil saber se está havendo evolução;
  3. Attainable (alcançável): não adianta estabelecer uma meta muito ambiciosa na esperança que, se parte dela for alcançada, você já terá avançado muito. Uma meta realista nos ajuda a manter o foco e a motivação.
  4. Relevant (relevante): a meta precisa estar alinhada com seus objetivos maiores, tem que ser algo que, quando alcançado, gere muita satisfação e principalmente vontade de continuar avançado.
  5. Timely (temporizável): metas precisam de deadlines (prazos de conclusão), check-points (pontos de checagem), isso vai gerar o senso de urgência necessário para tirar você da inércia.

Tome como exemplo um item que provavelmente está na lista da maioria das pessoas da seguinte forma: “aprender inglês”. Entre as variações dessa meta temos: “aprender inglês para conseguir uma promoção”, “falar inglês fluentemente até tal data”. Seja qual for a variação, geralmente essas metas são listadas de forma genérica e não preenchem os cinco requisitos do SMART.

Observe agora esta outra meta.

Desejo ser capaz de entender sem legendas todos os episódios da primeira temporada da série “How I met your mother”. Logo, vou estudar o vocabulário e fazer listening de um episódio por semana até concluir o estudo do 22º episódio em 12 de outubro de 2018.

Quem você acha que tem mais probabilidade de ser bem-sucedido? Eu aposto todas as minhas fichas na segunda. A primeira é muito genérica. A segunda, mesmo sendo mais modesta, é realista e, provavelmente, irá gerar grandes resultados.

Voltando para o meu caso, a nova meta, com alguns ajustes, passou pelo filtro do SMART.

Botando a mão na massa

Você já deve ter lido por aí que quando se quer uma coisa, o universo inteiro conspira a favor. Não aconteceu comigo. Parece que essa entidade maior estava muito ocupada conspirando a favor de outras pessoas. Eu tinha uma meta, estava empenhado em alcançá-la, mas as demandas não paravam de surgir. O impressionante é que várias dessas demandas não vinham de outras pessoas, eram criadas por mim. Fica uma reflexão: cuidado com a autossabotagem. Ela é muito mais comum do que se imagina.

Trabalhei para blindar a minha agenda e isso significava dizer não para outras pessoas e principalmente para mim mesmo. Aprendi que um não bem dado é menos prejudicial do que um sim sem compromisso. O NÃO tem que ser assertivo, com convicção. Não é não e pronto. O sim para agradar torna-se pendência, e – não querendo ser repetitivo – pendência é pendencia, consome energia, mesmo que não saia do papel.

Os primeiros dias foram confusos e desgastantes, deu muita vontade de desistir. O início de qualquer novo projeto exige mudança, evolução e crescimento.

O meu filho mais velho, lá pelos seus seis anos, reclamava frequentemente de dores nas pernas, principalmente na panturrilha. Eu e minha esposa ficamos muito preocupados, mas descobrimos, depois de alguns exames, que se tratava da chamada dor do crescimento. Depois dessa experiência, posso dizer com certeza que crescer dói. Literalmente! Todas as vezes que tenho dificuldade em iniciar algo novo, lembro-me desse episódio: é a dor do crescimento em ação.

Aos poucos, as atividades necessárias para alcançar a meta foram se tornando hábitos. A propósito, entender como os hábitos são formados pode ajudar muito no cumprimento das metas. Sempre que converso com alguém sobre o tema, indico o livro “O Poder do Hábito” do Charles Duhigg.

Livros recomendados: A Única Coisa e O Poder do Hábito

Ferramentas

Para me ajudar a manter o foco e organizar a agenda, fiz uso de duas ferramentas, são elas:

1. Wunderlist

Já utilizo há alguns anos. Ajuda muito na avaliação do progresso da semana anterior e no planejamento a próxima. É um sistema bem flexível que permite ajustar a agenda aos imprevistos que inevitavelmente vão acontecer. Utilizo os aplicativos para Android e para Windows 10. A sincronização funciona bem e ajuda até a acompanhar aquelas tarefas que foram delegadas para outras pessoas.

2. Toggl

A internet é uma maravilha, porém muito cheia de distrações. Combato isso com a técnica do pomodoro. Meu tempo é dividido em blocos de 25 minutos com um intervalo de 5 minutos para descanso. Por muitos anos, utilizei um software chamado Pomodairo para controlar o tempo. Infelizmente ele foi descontinuado. Numa de minhas buscas pela internet conheci o Toggl. O Toggl tem app, pode ser acessado como uma página web, mas o que eu uso mesmo é a extensão para o Chrome com o modo “Pomodoro Timer” ativo. Eles enviam um relatório semanal por e-mail que ajuda a identificar onde o tempo está sendo aplicado (ou até mesmo desperdiçado), e isso é útil no planejamento da próxima semana.

Este não é um post patrocinado, estou indicando porque são realmente úteis se utilizadas de forma correta e com disciplina. As duas ferramentas são gratuitas para uso pessoal. Para mim foi e é a combinação perfeita.

E aí, Alessandro. Deu resultado?

Assim como em tudo na vida é preciso ter paciência. Ainda estou em curso, mas já obtive alguns resultados que posso compartilhar com você.

Nunca tive problemas em delegar – pelo menos acho que não -, porém julgava algumas atividades do meu dia a dia complexas demais para que outra pessoa as fizesse. Nunca me senti tão feliz em estar enganado.

Leio livros no celular, no computador, mas a minha preferência são os livros de papel à moda antiga, isso me mantém off-line o tempo necessário para recarregar as baterias e voltar ao trabalho mais disposto.

Delegar várias tarefas da minha agenda permitiu que eu voltasse a ler com regularidade; ou, nas palavras que eu costumo usar em casa: levar a leitura a sério. Minha conta no Skoob nunca esteve tão ativa.

Acredito que o trecho “o restante se torne mais fácil”, que está em negrito naquela frase lá do começo, passou a fazer sentido.

Conclusões

Falhar não é um problema e sim uma oportunidade de aprendizado, mas você já sabe disso. Porém, se for para falhar, que seja rápido. Eu poderia ter arrastado essas metas sem sentido até o final do ano. Até que surgissem novas resoluções de ano novo. Fico feliz por não ter esperado.

Todo início de ano trás consigo a esperança de tempos melhores. É natural que, nesse período, mais itens apareçam na nossa lista de prioridades. No entanto, é preciso ficar atento, uma meta pode nascer e começar a ser executada a qualquer momento: no feriadão, antes do carnaval, na sexta-feira ou no início de dezembro, não importa.

Era isso que eu tinha a dizer. Se você esperava uma história com final feliz, digna da jornada do herói de Joseph Campbell, lamento. Isso é apenas um relato de viagem.

Se estou aqui compartilhando essa história com você é porque estou curtindo a jornada. No final das contas é isso que importa.

“As pessoas pensam que ter foco significa dizer sim para aquilo em que você está focando, mas não é assim. Significa dizer não a outra centena de ideias boas que existem.” – Steve Jobs

Para os Comentários

Como foi o seu 2017, quais foram as lições aprendidas?

Aguardo você nos comentários.

Take care!

14 Responses to “Resoluções de Ano Novo: Este ano não tem”
  1. Neide Iossi January 17, 2018
  2. patalves January 17, 2018
    • Alessandro January 18, 2018
  3. Mariluci Ferraz January 17, 2018
    • Alessandro January 18, 2018
  4. LINCOLN GUIMARAES FRANCA January 18, 2018
    • Alessandro January 18, 2018
  5. Rodolfo January 18, 2018
    • Alessandro January 18, 2018
  6. Antonio Carvalho January 18, 2018
    • Alessandro January 18, 2018
  7. Jesuina Santos January 19, 2018
    • Alessandro January 19, 2018

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